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terça-feira, novembro 16, 2004


Quase...


Luiz Fernando Veríssimo



Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do
talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me
incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo
que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda
joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu
está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas
oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances
que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do
papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma
vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A
resposta eu sei de cor, está estampada na distância e
frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na
indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra
covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão
queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses
fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a
dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse
mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias
seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada
não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas
amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que
fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao
alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-
nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia
à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de

merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros
amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um
coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é
instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a
saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo
impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em
você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo
que planejando, vivendo que esperando porque, embora
quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já
morreu.