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quinta-feira, novembro 18, 2004




Tolerância pro Amor

Quando Fidel Castro mandou fuzilar os homens que tentaram fugir de Cuba
numa
embarcação clandestina, meses atrás, o mundo se revoltou. Até mesmo
aqueles
que eram simpatizantes da política do ditador se manifestaram contra. O
escritor José Saramago foi quem melhor soube sintetizar seu sentimento:
"Cheguei até aqui". Com esta simples frase, ele demonstrou qual era seu
limite de tolerância. Não iria adiante com Fidel.

Todos nós temos um limite de tolerância em relação a tudo. Mas nas
questões
amorosas este limite tende a se esticar em função das nossas carências,
das
nossas fantasias, da nossa esperança de que, da próxima vez, as coisas
irão
dar certo. Mas não dão. E não dão de novo. Até onde você pode chegar?

Você teve uma relação terminada, sofreu muito, mas até hoje o cara
segue
seduzindo você. Você não dá a mínima, até que um dia cede, mas aí ele é
que
não corresponde. Você volta a ficar na sua, ele volta a seduzí-la, você
resiste, resiste, resiste, até que um dia você cede de novo, marca um
encontro, e ele cancela. E assim passam-se meses, anos, numa situação
absurda: ele atrás de você, e quando você diz sim, ele cai fora. Se
você não
consegue dar um basta nisso, é porque você ainda tem tolerância pra
gastar.

Ela lhe telefona e você larga tudo para vê-la, mas no dia seguinte ela
volta
pro namorado.

O sexo é ótimo entre vocês, mas quando não estão na cama, vocês não
conseguem trocar meia-dúzia de frases sem brigar.

Vocês adoram os mesmos filmes, os mesmos programas, são apaixonados um
pelo
outro, mas sexualmente há uma falta de atração total.

Você se sente infeliz, mas não tem coragem de começar vida nova.

Você se arrependeu de deixá-la, mas seu orgulho impede de pedir pra
voltar.

Até onde podemos ir? Até o limite do suportável. Um belo dia, depois de
inúmeras repetições do mesmo erro, a gente desiste. Com tristeza pela
perda,
mas com alegria pela descoberta, diz pra si mesmo: "cheguei até aqui".
E,
então, a vida muda.